É possível educar para a paz?

Há muita responsabilidade nas mãos dos educadores, incluindo a de formar cidadãos melhores. Afinal, que poderes têm os professores para influenciar gerações de estudantes, a ponto de transformar uma sociedade?

Uma das atividades cotidianas de professores em várias partes do mundo é lidar com a resolução de pequenos conflitos em sala de aula. Portanto, de alguma forma, nossa tarefa é também mediar diferenças e encontrar saídas pacíficas e justas dentro do microcosmo social que é a escola.

Cada situação pode ser, em si, um momento para ensinarmos. E, nesse sentido, fica ainda mais evidente que para além dos nossos métodos e treinamento, também nós, ensinamos pelo exemplo.

Quando chamamos a atenção para a necessidade de compreender o ponto de vista do outro, de analisar uma mesma situação sob diversos ângulos e principalmente quando fazemos os alunos perceberem que muitas soluções podem ser construídas com a colaboração de todos, estamos de alguma forma estabelecendo e reforçando valores importantes para o convívio social e o respeito mútuo.

Toda escola, rica ou pobre, tem uma cultura que a determina. Já notou que alguns alunos e mesmo professores afirmam sentir um ‘clima’ bom ou ruim em algumas escolas? E se você olhar mais de perto, verá que algumas escolas, por mais bem equipadas e conceituadas, parecem frias, não acolhedoras?

Por que isso acontece?

Há várias respostas possíveis para esta questão, mas uma escola, como qualquer outro agrupamento de seres humanos, reflete os valores de quem a representa. É evidente que uma escola com infra-estrutura, boas condições físicas, acesso a recursos de ensino atualizados e professores bem preparados tem mais chances de oferecer o melhor ensino. Da mesma forma, alunos bem alimentados e que recebem em casa apoio emocional e material para se desenvolverem têm mais condições de aprendizado.

No entanto, nunca se deve esquecer que a escola se faz de seres humanos para servir seres humanos. Isso significa que valores humanos também fazem parte do perfil de uma escola.

A médica e educadora Maria Montessori (1870-1952) disse que entre os problemas mais urgentes para os quais a humanidade esperava solução estavam a manutenção da paz e a unidade entre os povos. Ela acreditava ser possível instilar na criança uma consciência e sentimento em relação à vida humana de tal forma a torná-la incapaz de crueldade.

O que é paz nos dias de hoje?

Enquanto Montessori viu duas guerras mundiais, vivemos em tempos nos quais paz não signica mais ausência de guerras. Hoje, os trabalhos publicados que fazem a intereseção entre educação e paz estabelecem paz como redução da violência. Hoje a violência ocorre na maior parte dentro das nações, entre grupos divididos por etnicidade, religião, e classe social.

Infelizmente, do ponto de vista acadêmico, ainda há pouco material evidenciando cientificamente que a educação fomenta uma sociedade pacífica. Mas ainda que seja pouca a produção de pesquisa , quem trabalha cotidianamente com educação intui que, sim, uma sociedade menos violenta e mais justa passa, necessariamente, por acesso à educação.

A questão que se coloca é : que tipo de educação realmente promove a paz? E como competir com as influências negativas que cotidianamente ganham força fora dos muros da escola?

O primeiro passo para de fato fazer frente a uma cultura de ódio e violência é preparar os estudantes para se tornarem imunes a ela, ou seja, ensiná-los a compreenderem por meio do pensamento crítico e da informação que não devem se engajar em formas violentas para resolver conflitos, e que devem sempre desconfiar de visões de mundo totalizantes.

Voltando a Montessori, é preciso educar para que a criança desenvolva sólida convicção de que todo ser humano deve ser respeitado e que a vida humana, toda vida humana, tem valor.

Do seu lugar…

Em princípio, o que tipicamente assusta docentes quando são cobrados sobre sua participação na construção de um mundo menos violento, é que as discussões muitas vezes não levam em conta o contexto em que a prática pedagógica acontece.

Enquanto é consenso que educar meninas no Paquistão e no Afeganistão são tarefas extremamente árduas, tendemos a desconhecer a variedade de contextos no Brasil e a generalizar a situação como se todas as escolas fossem uma.

Isso obviamente não ajuda, porque desconsidera diferenças fundamentais que exigem abordagens também distintas. Quem, por exemplo, ensina numa escola dentro de uma comunidade carioca onde os alunos estão diuturnamente expostos a uma cultura de violência, certamente terá de ter mais estrutura emocional e apoio psicopedagógico adequado para lidar com a situação.

Entretanto, longe de resolver os problemas das comunidades em que se inserem e os problemas do país,cada vez maiores, necessitamos adotar pequenos passos, procedimentos ao seu alcance que – mesmo que pouca gente veja – constroem uma cultura de tolerância, de acolhimento e afeto.

Aqui algumas dicas:

  • Não tente ser Dom Quixote, o cavaleiro solitário. Engaje colegas e a direção nessa campanha;
  • Seja pró-ativo(a), ou seja, comece a trabalhar resolução de conflitos com os alunos desde o primeiro dia de aulas. Isso significa desenhar estratégias para solucionar problemas entre os alunos mesmo antes que os conflitos aconteçam;
  • Ensine seus estudantes diretamente que tipo de habilidades vão precisar para conviverem bem e respeitosamente, seja por meio de trabalhos em duplas ou em grupos;
  • Discuta o conceito de competição de forma renovada: primeiro ressaltando que a melhor competição é a que busca vencer nossas próprias limitações; e num segundo momento como competir de forma saudável e divertida;
  • Como já devo ter falado outras vezes por aqui, inclua em seus planos de aula muita atividade de role play , o velho e bom teatrinho. Quando temos de representar o papel de alguém muito diferente de nós, começamos a nos colocar no lugar deste personagem e com isso temos a chance de vislumbrar suas posições e dificuldades; exercitamos de forma lúdica a empatia.
  • Desenvolva dinâmicas nas quais os alunos têm espaço para compartilhar sentimentos, expressar suas frustrações e anseios de forma tranquila, em ambiente seguro e sem pressões ou julgamento.
  • Reforce cotidianamente a ideia de que ao nos apoiarmos uns aos outros somos mais fortes e resilientes. Pequenas práticas nas quais uma aluna ou aluno tem a oportunidade de elogiar seu/sua colega devem se tornar parte da rotina.
  • Assim como disse que devemos tomar a iniciativa de trabalhar mecanismos que dissolvam um conflito antes que ele se concretize, devemos ensinar isso também aos alunos. Ao aprenderem algumas estratégias poderão aplicá-las ao ambiente escolar e com toda certeza levar este aprendizado para atuar em casa e em sociedade.

Perceba que nossa função na educação talvez não seja negociar tratados de paz, mas inseri-la e cultivá-la em nossa prática é definitivamente uma forma de promovê-la.

Se você concorda com essas ideias mas sente falta de dinâmicas nas quais possa colocar tudo isso em prática, continue acompanhando a Claraboia porque o objetivo é justamente ampliar o repertório de ações que podemos tomar para educar, de fato, com afeto e para a paz.

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