Rituais de fim de ano no mundo virtual

Alguns ritos marcam a trajetória da vida escolar. Conheça aqui algumas ideias pequenas que podem DRIBLAR OS IMPEDIMENTOS DESTA PANDEMIA e acalentar a memória coletiva do gurpo.

Há muitos e muitos anos, eu e Tania, uma colega do segundo ano, do que hoje se chama Ensino Médio, resolvemos organizar uma homenagem aos nossos colegas de classe no fim do ano. Era um grupo muito especial, que foi ficando mais próximo no decorrer do ano, e sentimos que não podíamos simplesmente terminar sem uma ‘cerimônia de encerramento’.

Instituímos algumas categorias (Simpatia, Elegância, Bondade…) e escolhemos (se bem me lembro não de forma muito democrática) os vencedores. Detalhe: o evento era surpresa. Eu e ela preparamos em casa, manualmente, certificados com algumas palavras bonitas explicando a cada vencedor por que mereciam o prêmio. O dia da entrega foi uma emoção. Teve até um hino/paródia para a classe!

Eu sempre curti esse tipo de ritual e de alguma forma carreguei essa ideia para meu trabalho na docência. Por anos, o fim do semestre dos cursos iniciais de Português, que sempre terminavam no fim do ano, era marcado por uma apresentação de power point( que ainda era algo menos banal), com fundo musical e tudo.

Meses antes eu pedia que cada um me mandasse uma foto de que gostasse. Ao longo do semestre, eu aprendia sobre cada um e, ao final, criava uma narrativa agradecendo por um semestre legal e ia mostrando a foto de cada um com uma referência engraçada (às vezes relacionada com alguma coisa que tivesse acontecido em classe), um detalhe da personalidade daquela pessoa, ou algo ligado ao lugar de onde ela vinha. Nossos grupos sempre tinham gente do país inteiro.

Dava um trabalho enorme e às vezes eu trabalhava até a madrugada anterior para uma apresentação bem curta. Todo ano prometia que não faria de novo. Mas era sempre muito divertido e emocionante, para eles e para mim. E assim eu continuava fazendo.

A criação de pequenos rituais com o qual o grupo se reconheça é potencialmente uma estratégia excelente para se estabelecer e fortalecer um sentimento comunitário. Fazia isso meio que por intuição e pelo prazer que me dava ver os alunos atentos, envolvidos e muitas vezes genuinamente gratos por terem percebido que eu os observava e me importava com eles.

O aspecto sócio-emocional é fundamental como elemento motivador e como balizador da saúde psíquica de todos os envolvidos no processo de aprendizagem, sei disso hoje.

Por tudo isso, nem preciso lembrar que 2020, mesmo depois de longos meses de pandemia, ainda nos apresenta desafios que vão além de sobrevivermos ao vírus.

Outro dia eu conversava com uma amiga que tem um filho de 5 anos e que tem feito todo o possivel para que seu menino tenha as melhores lembranças dessa fase. Não sabemos se ele vai se lembrar de algo, mas se depender dos pais ele vai guardar imagens de acampamentos sobre o tapete da sala, filminho com pipoca caseira, e a companhia constante de papai e mamãe (de repente trabalhando de casa), mais brincadeiras e jogos.

E se a gente pudesse deixar para nossos alunos algo mais do que o sentimento de separação dos colegas e professores? E para os que se formam agora? Como fazer que este marco não perca de todo o encanto?

Formatura criativa

No meio do ano, nos EUA e em alguns países da Europa, quando o ano escolar se encerra, os formandos do ensino médio e das universidades se frustraram muito, vendo seus planos de celebração arruinados pelo isolamento social.

Várias instituições se organizaram para oferecer colação de grau presencial com protocolo de segurança, enquanto outras fizeram eventos online.

Em sociedades como as norte-americanas, nem isso fez a felicidade da moçada porque lá há vários micro-eventos culminando com a formatura . É evidente que não tinha como ser a mesma coisa. Mas a criatividade em muitos casos amenizou a decepção. O importante, afinal, é criar memórias.

Se o ritual for inspirado no Natal, é possível manter a tradição do amigo secreto. Ao invés de um presente, talvez um poema? Uma história curta? Uma playlist muito bem pensada? Um mimo digital como uma animação de um minuto?

Ideias simples : qual é a sua?

Pensar em formas de reforçar os laços entre todos os membros da turma, apesar da distância, vale para cursos regulares assim como para eventos mais pontuais; para crianças, adolescentes e adultos. Só precisa se adaptar a ideia a cada público.

No mais recente curso síncrono que dei online, no último dia levamos uma taça para brindarmos o fim das aulas. Não precisava ser bebida alcoolica, claro, o que valia era o ritual do nosso tin tin e da foto para a posteridade.

Ouvi uma experiência em que uma professora numa cidadezinha do Brasil se aposentou e a festa de despedida que havia sido planejada foi cancelada. Seus colegas e alguns alunos resolveram passar em frente à casa dela de carro, com balões, buzina, faixas e acenos. Um carreata de amor e gratidão.

Uma colagem de fotos que se possível todos possam ver juntos, é quase sempre uma boa pedida. Um quadro branco (tipo Jambord ou Miro) com post its com recadinhos para a turma toda e desenhos daqueles que são bons nisso.

Só não funciona com crianças muito pequenas . Mas neste caso um joguinho interativo como ginástica em grupo, ou macaco faz macaco segue (Simon says) ou um vídeo com animais fofinhos…Se os pais puderem colaborar, a imaginação pode ir mais longe. É possível, por exemplo, mandar recadinhos dos professores que os pais terão de esconder e criar um mapinha para que os filhos os encontrem em casa, por exemplo.

Delícias e arte

Comida também está sempre associada a rituais e a memórias. Gostoso se cada aluno pudesse receber um bolinho de caneca, ou um cupcake (pode até ser que uma confeitaria queira doar ou fazer por um preço camarada?). Tudo isso depende de logística, obviamente. Coordenar quem é alérigico, se há condições de se entregar a cada um em casa e de forma segura, é um desafio grande. Ah, sim, e combinar que todos devem comer ao mesmo tempo!

O uso de uma peça diferente num encontro virtual também pode ser legal, mas idealmente para quem trabalha com comunidades carentes, deve ser algo que seja fácil conseguir. O uso de uma cor, de um objeto, por exemplo, ou de um chapéu engraçado. O chapéu pode ser confeccionado por cada um (ao melhor estilo chapeleiro maluco!).

Uma vez fizemos uma atividade em que cada estudante levava uma foto de quando era bebê e me entregava secretamente. Eu misturava as fotos e as expunha e todo mundo tentava acertar quem era cada bebê. Se você ensina crianças, essa dinâmica não teria muita graça porque eles provavelmente não mudaram muito. Na universidade, porém, foi muito legal. E esta é totalmente transferível para o ambiente virtual.

Você também pode propôr algumas performances como a organização de um jogral, a composição de uma canção ou simplesmente podem escolher uma música de que a maioria goste para cantarem juntos, ou podem montar/escrever um livro do ano (isso leva mais tempo). Há recursos digitais para isso e muitos gratuitos.

Depedendo da idade e condições dos participantes, uma receita única feita por alguém e seguida por todos ao mesmo tempo também pode ser muito divertido, como um canal de culinária.

Por fim, volto à ideia da playlist. Desta vez uma única, que represente todo o grupo e que pode acompanhar cada participante como um souvenir com músicas que todo mundo gosta. Pode ser difícil chegar-se a uma lista que agrade a todos, mas totalmente vale a pesquisa.

Talvez essas ideias tenham chegado tarde demais no seu ano letivo. Talvez você possa usá-las, quem sabe presencialmente, num outro momento. O bom é que afeto não tem data para expirar.

Você já fez algo ou tem uma ideia que pode compartilhar? Conte nos comentários!

Foto: Giftpundits/Pexels

8 comentários em “Rituais de fim de ano no mundo virtual

    1. Bom você ter gostado, Mariel! Volte sempre!

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      1. Tania Josefa Gomes da Silva 20 de dezembro de 2020 — 13:58

        “O bom é que afeto não tem data para expirar.”
        Não mesmo Selma. Lá se vão quase 40 anos…e eu continuo feliz, grata e orgulhosa por ter sua amizade🌹. Você sempre foi e continua sendo inspiração. Parabéns pelo belo trabalho. Eu…continuo te seguindo…
        Obrigada, grande beijo. Tania

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      2. Amiga, você se lembra dos nossos ‘diplominhas’? Que privilégio ter você, ainda que à distância, na minha vida. Vamos nos seguindo

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      3. Obrigada, Tania querida pela visita (mais que ilustre) e pelo apoio de sempre. Abraço saudoso!

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  1. Poxa que delicia de texto. Eu não sou muito amiga de rituais, assim com regras e tal, mas o envolvimento entre pares, o desenvolvimento de habilidades emocionais, atividades de acolhimento são sim interessantes.
    Estou lendo um livro do Ken Robinson ESCOLAS CRIATIVAS, que advoga esse olhar sobre a educação. Parabéns

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que comentário bacana, Heide! Gosto muito de rituais que são particulares ao grupo. Cria um sentimento de pertencimento muito forte. Se conseguir, vou olhar este livro. Grata pela sugestão!

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  2. Tania Josefa Gomes da Silva 20 de dezembro de 2020 — 18:44

    SelmaQueridaSelma. Eu que agradeço a doce lembrança🌹. Talvez não tenhamos sido muito “democráticas” na época(?) mas, fomos verdadeiras e permanecemos. Que bom, que alegria e que orgulho. Muito obrigada…”vamos nos seguindo”😘

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