Colaborar e cooperar são atividades diferentes?

Embora a gente ouça e até use os dois verbos como se fossem sinônimos, na verdade eles têm significados distintos. 

É comum que os dicionários apresentem as palavras como intercambiáveis . A tendência, não só da língua portuguesa, se vê na vida cotidiana. Em termos de trabalho de gerenciamento de projetos, no entanto, a diferença, ainda que sutil, é observável.

Uma premissa básica é que ao cooperar você se junta a outras pessoas para alcançar seus próprios objetivos ( ou da instituição que você representa) , que por sua vez são parte de um objetivo comum. Já ao colaborar trabalhamos juntos por um único objetivo compartilhado. 

Complicado? Esta imagem ajuda a visualizar a ideia.

O professor John Spencer, que tem experiência com ensino médio e superior, chegou a uma listinha comparativa simples, que resumo a seguir. 

COOPERAÇÃO

  • Pressupōe respeito mútuo;
  • Membros do grupo compartilham objetivos em comum;
  • Inclui o compartilhar de ideias;
  • Aplica-se geralmente a projetos de curto prazo;
  • Há independência entre os membros do grupo.

COLABORAÇÃO

  • Pressupõe confiança mútua;
  • Membros do grupo compartilham valores em comum;
  • Inclui a geração de novas ideias;
  • Aplica-se em geral a projetos de longo prazo;
  • Há interdependência entre os membros do grupo.

Desconte as generalizações, ponto fraco de qualquer lista, e use o tópico como provocação ao pensamento. Que lhe parece?

Idealmente, essas abordagens (ou sistemas de trabalho) devem caminhar juntas, porque são vitais para o trabalho criativo. Trabalhar cooperativamente e colaborativamente é, além disso, parte de uma visão construtivista, que está no cerne do aprendizado ativo, não-tradicional. 

De acordo com Spencer, colaboração sem cooperação pode resultar em pensamento coletivo único, mas cooperação sem colaboração só pode chegar à desunião. 

Para facilitar a distinção entre os dois conceitos, costuma-se pensar em cooperação como uma dinâmica onde cada um traz uma peça para montar a máquina, e colaboração como o ato de construir, junto, toda a máquina.

Spencer aposta, porém, que quando aplicamos cooperação e colaboração em qualquer projeto, chegamos a um resultado mais profundo, inovador e de melhor qualidade. 

Cada um faz sua parte…

Não me lembro quantas vezes ouvi isso ao longo da minha (longa) vida de estudante: ‘cada um faz a sua parte e no final a gente junta tudo’. É certo que esse procedimento surgiu em função da nossa falta de tempo crônica, da nossa inabilidade (frequente) de negociar situações em que seja possível trabalharmos juntos.

Hoje, no entanto, o novo paradigma nos leva a ter encontros online e enquanto vejo muita gente reclamando, com razão, sobre isso, fico pensando se não seria o momento de colaborarmos, ainda que à distância . Mais do que isso, se não seria a deixa perfeita para criarmos em nossas escolas, instituições e comunidades, a cultura da colaboração de verdade e manter o processo andando quando o ensino presencial se restabelecer completamente.

Isso porque podemos até fazer individualmente e simplesmente empacotar as partes ao final, mas não deveríamos nunca acreditar que isso seja trabalho colaborativo. Nossa interação é parte fundamental do projeto colaborativo. Pular esta etapa é no mínimo fingir que ela é descartável e, pior, mina o maior valor desse tipo de trabalho: a troca, a experiência da escuta, a construção a partir da ideia do outro.

Vantagens da colaboração

Na educação , a realidade do trabalho colaborativo de forma sistemática ainda deixa a desejar, mas na área corporativa a história já vem sendo levada a sério por algum tempo, especialmente nas chamadas empresas inovadoras. Entre as vantagens apontadas, algumas podem ser surpreendentes:

  • aumentar a consciência dos participantes sobre a forma de atuar dos colegas e de si própria(o)
  • acelerar o processo de realização dos projetos
  • construir confiança mútua
  • engajar os participantes em aprendizado contínuo
  • promover novos canais de comunicação internamente e com a comunidade
  • aumentar a eficiência do grupo e individual
  • impulsionar a criatividade
  • levantar a moral da equipe

Ferramentas digitais

Por um tempo, quando poucas ferramentas estavam disponíveis, eu me utilizava do Dropbox para compartilhar atividades e estratégias didáticas com minhas colegas. A escolha tem suas limitações porque facilita a simples troca de arquivos e não gera, necessariamente, mentalidade colaborativa. Uma alternativa seria agendar pequenos encontros, de tempos em tempos, para rever o material compartilhado e de que forma cada contribuição pode ser aperfeiçoada e adaptada para outros fins e disciplinas, ou seja, fomentar diálogos.

Nos dias de hoje, os grupos de Facebook e de WhatasApp parecem ser os veículos mais populares no ambiente virtual entre professores no Brasil. Agora, o Telegram corre por fora pois tem algumas configurações interessantes como, por exemplo, permitir a criação de um canal e facilitar o compartilhamento de arquivos. E ainda tem a opção de enquete e no app para celular é possível editar uma mensagem, evitando aqueles erros constrangedores que só vemos quando já é tarde demais. Quem escolhe qualquer uma dessas redes deve se lembrar, porém, de criar algumas regras de participação para que o objetivo do grupo não se desvirtue.

Outra boa ideia é ter mais do que um veículo de comunicação: por exemplo, utiliza-se o WhatsApp ou Telegram para comunicação entre os membros e compartilha-se documentos via Google Drive ou Dropbox. As ferramentas do G Suite costumam ser um pacote que serve muito bem às necessidades de um trabalho colaborativo.

Organização é regra!

Para quem também busca uma ferramenta organizadora e que se integre a outras, vale experimentar as versões gratuitas de Trello e Slack. O primeiro é excelente para se estabelecer prioridades e monitorar o cumprimento das tarefas, além de ser bastante intuitivo. Adoro poder aplicar etiquetas coloridas a cada ação planejada e você pode customizar as categorias de cada tarefa.

O Slack tem uma interface um pouquinho mais complicada mas também se integra a um número enorme de apps (incluindo o próprio Trello) e pode ser usado como forum de discussões, separados por tópicos, permitindo colaborar com grupos diferentes e não se perder.

Para que um projeto colaborativo deslanche, é fundamental observar cuidados como: estabelecer o objetivo do projeto e escrever diretrizes claras sobre o funcionamento do grupo. Idealmente, duas pessoas devem monitorar o grupo, de forma rotativa, dando assim a oportunidade para que todos passem pela “função”. Isso reforça os princípios colaborativos, que afinal regem o grupo e fazem tudo fluir melhor.

Quando se negligenciam esses cuidados, projetos colaborativos promissores acabam nem decolando, então, vale o alerta. Ah, sim, e é possível estimular experiências colaborativas entre os alunos, mas isso merece outro post gigante! 🙂

Foto em destaque: Christina Morillo, Pexels

Uma versão reduzida deste texto foi publicada na Newsletter 47 – Ano 3, da Claraboia

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