Sala de aula : Luana Tolentino, Direitos Humanos e Cidadania

A  partir de agora, vamos ter uma seção chamada Sala de Aula com posts especiais de professoras e professores contando sobre uma experiência bem sucedida, que merece ser compartilhada com todos. Para abrir a série em alto nível, temos ninguém menos que a professora mineira mais amada do Brasil, Luana Tolentino.

Em seu perfil de Facebook ela se define simplesmente como “mulher, negra, canhota, gêmea univitelina” . Quem a conhece, de longe ou de perto, sabe que ela é tudo isso e muito mais.

 

Luana
Crédito da foto: Carol Lopes

 

Professora, historiadora, mestranda em Educação na Universidade Federal de Ouro Preto, referência no  feminismo negro do Brasil, Luana Tolentino foi agraciada com a Medalha da Inconfidência pelo governo de Minas Gerais em 2016 e se prepara para lançar seu primeiro livro na Flip (Feira Literária de Parati) deste ano.

Em 2013, quando eu ensinava português na Universidade Yale, li uma entrevista com ela que me impressionou bastante. Tomei coragem, entrei em contato e pedi encarecidamente que ela fosse nossa entrevistada. Meus alunos tinham acabado de ler o conto “Maria”, de Conceição Evaristo e discutíamos a alarmante violência contra a mulher negra no Brasil  e a conjunção de questões como racismo e machismo.

Luana então nos concedeu uma conversa descontraída via Skype e encantou os alunos e ainda mais a professora. No ano seguinte, na primeira oportunidade que tive fui a Belo Horizonte exclusivamente para conhecê-la pessoalmente e descobri que o carisma da moça, ao vivo, era ainda maior.

É uma honra para mim poder republicar aqui no blog da Claraboia, com autorização da autora, um texto recente que ela divulgou em seu Facebook e que até o momento em que escrevo já contava com mais de 400 reações positivas e 56 compartilhamentos.

É importante lembrar que Luana ensina História numa escola pública de um bairro carente da região metropolitana de Belo Horizonte.

Agora, ao texto:

Direitos Humanos como caminho ao exercício da cidadania

Imagem Grátis | Comunidade e Solidariedade - Mãos Estendidas

Há alguns anos opto por trabalhar com os meus alunos por eixos temáticos.

Desde fevereiro, o foco das minhas turmas do 8. ano é a Educação em Direitos Humanos. Se o Datena grita para milhões de pessoas que “Direitos Humanos servem para proteger bandidos”, nas minhas aulas eu repito quantas vezes forem necessárias que as palavras do apresentador do Band não passam de uma grande estupidez. Completo:

– Por favor! Não quero vocês repetindo esse tipo de bobagem!

Minha fala é firme, incisiva, mas é aberta ao diálogo, à escuta atenta, aos conhecimentos que os alunos trazem de casa. Sei, entendo que eles estão contaminados pelo fascismo que domina os programas policialescos, toma conta da internet e se espalha feito rastio de pólvora nos grupos de whatsapp.

Para entender o que são Direitos Humanos, tomamos por base a Revolução Francesa. Agora eles já sabem que os DH não nasceram ontem. Muito pelo contrário, são fruto de lutas longas e difíceis.

Para nortear o nosso debate, adotamos o texto elaborado carinhosamente pela advogada e ativista dos Direitos Humanos, Jessica Nure. Ela escreveu uma carta para os meus alunos em uma linguagem fácil e acessível. Desse modo, eles descobriram também que os DH estão a serviço de todos nós – mulheres, negros, indígenas, homossexuais, moradores em situação de rua e todos os grupos em vulnerabilidade social.

Adotamos também as rodas de conversa. É importante que todo mundo veja e ouça todo mundo. Meu papel é mediar os debates que vez por outra pegam fogo!

Depois de duas semanas de conversas e discussões, hoje foi a vez de responder algumas perguntas. Uma delas era se após as nossas aulas a percepção que eles tinham a respeito dos DH mudou ou permaneceu a mesma.

Cerca de 80% dos alunos compreenderam que é preciso refletir, ir além do senso comum. Sarah completou que “todo mundo tem o direito de ser tratado com respeito e igualdade”, daí a importância dos DH.

Lorrayne foi dura com o colega que defende que os presos devem viver em verdadeiras masmorras: “ninguém aqui tá falando que quem comete um crime não deve pagar. Estou falando que independente do crime, a pessoa tem o direito de ser tratada como gente!”, disse a garota de 13 anos.

No lado oposto, Marcos ensaiou um apoio ao Bolsonaro. Como eu disse, muitos alunos estão contaminados pelo discurso de ódio. Acredito que quando se trata desse sujeito é preciso ter uma postura respeitosa, porém, firme. Repeti o que o deputado federal disse à deputada Maria do Rosário – “não estupro você, porque você não merece.” Disse também que Bolsonaro afirmou em entrevista que um filho dele “jamais se casaria com uma mulher negra.” Meu alunos ficaram perplexos. Chocados, lançaram os olhares na minha direção. Acho que eles perceberam que essas palavras ofendiam a mim também. O assunto foi logo encerrado.

Próximo ao fim da aula, no lugar de mais perguntas, vieram sugestões:

– Professora, nós precisamos falar mais sobre esses assuntos!
– O que vocês sugerem?, perguntei!
– Homofobia!, foi a sugestão da Sarah.
-Religião (intolerância religiosa é o que a Kaillayne quis dizer. Ela é umbandista)!
-Racismo!, sugeriu a Julia. E o Richard completou: Se você é preto, a polícia já sai dando tapa na cara!

Esperta que sou, topei na hora! Claro que topei! Topei cheia de orgulho, uma vez que vivemos um período em que determinados assuntos são discutidos nas escolas somente após muitos enfrentamentos. Ver os meus alunos abertos e ansiosos para tratar de temas tão complexos e importantes me enche de esperança. Sim. Há luz em meio a tanto ódio e ignorância.

Ver os meus alunos abertos e ansiosos para tratar de temas tão complexos e importantes me enche de esperança

Alguns professores questionam como eu faço “para cumprir o conteúdo” ao incluir esses temas nas minhas aulas. Cria-se a impressão de que eu passo o ano inteiro sem ensinar nada do que é estabelecido pelo currículo de História.

Não é bem assim. A grade curricular adotada pelas instituições de ensino pode servir como norte para o trato dessas questões, contudo, é preciso aceitar o desafio de ressignificá-la com o compromisso de promover uma educação cidadã.

Mais do que isso: é necessário compreender que a educação, assim como tudo na vida, precisa fazer sentido. Tanto para quem aprende, quanto para quem ensina.

(Luana Tolentino, 4 de maio de 2018)

*  *  *

Se você professora ou professor também teve uma experiência interessante e marcante  na sala de aula que gostaria de compartilhar, escreva pra gente.  E não perca o próximo post sobre o PIBID.

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