O papel de quem ensina em tempos de Google: último post da série

Em clima de Dia do Trabalho, venha refletir sobre esta profissão que chega ao século XXI ainda cercada de mitos e cada vez com mais desafios.

Geralmente mal remunerados e nos dias de hoje com pouco prestígio social, os professores brasileiros são muitas vezes apontados como uma das razões dos problemas da nossa educação. Já notou que quando alguém fala bem ou mal de uma escola, uma das primeiras observações é sobre a qualidade de seus docentes?

Apesar de tudo isso ainda é comum encontrar crianças que querem ser professores “quando crescerem” . O fascínio nem surpreende. Afinal a escola continua sendo, depois da família, o ambiente no qual percebemos nossas aptidões, desenvolvemos amizades e descobrimos, nos professores, outros adultos que podem nos servir como espelho.

Além da responsabilidade enorme de se apresentar como um exemplo, sobretudo para quem ensina os níveis elementares, não se pode negar também que a profissão tem em si algumas caracteríticas bastante peculiares.

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Uma costureira que faz vestidos, por exemplo, conhece a técnica de cortar tecidos e transformá-los em roupas. Meu saudoso avô, padeiro, sabia a receita para determinado tipo de pão, quanto tempo cada uma exigia e truques para um pão mais bonito e apetitoso. Cada profissional poderia, talvez, ensinar seu ofício. Mas isso com certeza constituíria em um segundo emprego, certo?

Talvez os mitos associados aos mestres tenham sua origem exatamente nessa dinâmica; ou seja, você não só tem de conhecer o tema que ensina mas ter determinado treinamento, uma técnica, um estilo ou, para muitos, um talento para compartilhar tudo isso com seus alunos. Como lembra Rogério A. Ferraz de Andrade: “Supõe-se que o êxito ou o fracasso dos alunos deve-se ao preparo do professor, que além do saber precisa conciliar empatia, criatividade, segurança e, acima de tudo, pressupostos psicológicos capazes de prender a atenção dos educandos”.

À professora de português, portanto, não basta aprender sobre língua e literatura e dominar seus conteúdos. Assim como ao de Matemática não é suficiente ser expert nas equações previstas no programa. Deles se espera que na mesma medida tenham capacidade e discernimento para repassar o que aprenderam a seus alunos da forma mais agradável e efetiva.

Nossa tarefa como profissionais docentes, como discutido em post anterior, é também a de mediação. Para Tânia deMoura Fonseca “O professor é o condutor da aprendizagem do aluno, possibilitando o pensar, o refletir, o compreender”.

Já a educadora húngara Éva U. Szucz usa a palavra “facilitador”. Para ela, nós professores somos facilitadores de um processo de aprendizado, mas lembra que no século XXI um professor também deve ter experiência com tecnologia da informação e equipamentos que, no passado, se restringiam a um quadro negro e giz.

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A essa altura, depois de ler quanto se espera de um professor, pode-se ficar com a impressão de que se trata de uma profissão cujas demandas são pesadas demais. O que pode ser verdade se pensarmos num contexto no qual, como dissemos ao princípio, educação não é prioridade. Mas, como também já foi dito ao início, uma profissão que continua inspirando crianças e jovens a seguir essa trilha, por mais dura que seja.

Rubem Alves sempre discordava da ideia de sofrimento associada ao ensino e uma vez escreveu que ensinar deve ser um deleite para a alma e que “o mestre nasce da exuberância da felicidade”.  Então que todos possam de fato ensinar com alegria, o que não signfica sujeitar-se a salários indignos, a um sistema educacional decadente e sem perspectivas,  mas ter certeza do próprio valor dentro da sociedade e lutar por reconhecimento e remuneração justa.

A série de posts chegou ao final, mas ainda ficou muito por falar sobre o tema. Para ter ainda mais espaço para essa conversa, aguarde o Clarapod, uma série de podcasts de e para professores. Aguarde! E assine a lista de emails para não perder nadinha.

Referências:
Desfazendo o mito do super-heroi docente“, Rogério Alencar F. de Andrade
Ensinar- Aprender: Pensando a prática pedagógica“, Tânia M. de Moura Fonseca.
The role of teachers in the 21st century“, Éva Ujlakyné Szucs
A Alegria de Ensinar, Rubem Alves (São Paulo: ARs Poetica Editora, 1994)

 

 

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