O papel de quem ensina, em tempos de Google (2)

Como alunos e professores julgam o conhecimento? O professor que ensina melhor é o que sabe mais? Como se transmite conhecimento? Leia sobre estas e outras reflexões no segundo post da série.

De acordo com Paulo Freire, não existe ensinar sem aprender. Ele enfatiza que quem ensina aprende não somente ao reconhecer o conteúdo anteriormente aprendido, mas também por meio da forma como a curiosidade do aluno aprendiz opera para aprender o conteúdo ensinado. Isso porque ao se expor a “descobrir incertezas, acertos, equívocos”, o ensinante aprende duplamente e mais:

O aprendizado do ensinante ao ensinar se verifica à medida em que o ensinante, humilde, aberto, se ache permanentemente disponível a repensar o pensado, rever-se em suas posições; em que procura envolver-se com a curiosidade dos alunos e dos diferentes caminhos e veredas, que ela os faz percorrer. Alguns desses caminhos e algumas dessas veredas, que a curiosidade às vezes quase virgem dos alunos percorre, estão grávidas de sugestões, de perguntas que não foram percebidas antes pelo ensinante

Note que o educador enfatiza, talvez acostumado que estava a críticas de quem não compreendia seus enunciados, que :“[isso]não deve significar, de modo algum, que o ensinante se aventure a ensinar sem competência para fazê-lo. Não o autoriza a ensinar o que não sabe. A responsabilidade ética, política e profissional do ensinante lhe coloca o dever de se preparar, de se capacitar, de se formar antes mesmo de iniciar sua atividade docente. Esta atividade exige que sua preparação, sua capacitação, sua formação se tornem processos permanentes. Sua experiência docente, se bem percebida e bem vivida, vai deixando claro que ela requer uma formação permanente do ensinante. Formação que se funda na análise crítica de sua prática”.

paulo-freire

Ensino dialético vs. Respostas prontas

Paulo Freire morreu em 1997, portanto antes que a internet se impusesse com a força atual e bem antes do grande boom das redes sociais. Mesmo assim, suas ideias se aplicam perfeitamente a muitas das discussões que temos nos dias de hoje, com relação às novas demandas da educação.

A coisa mais interessante, se não a mais bonita, de sua visão sobre o papel do professor é notar que por mais que uma tecnologia nos auxilie, por exemplo, a democratizar certos conteúdos de qualidade, é na interação, no exercício do ensino, que se constrói, mutuamente, o conhecimento.

Ao “ensinar”o livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, a grupos de falantes de português não-nativo, quase não conseguia esconder meus temores por me aventurar a ensinar uma escritora considerada difícil e enigmática, ainda hoje tabu para leitores nativos da língua, a leitores de português como língua estrangeira.

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Durante as discussões, cada grupo trouxe  questionamentos sobre a personagem Macabea a partir de sua próprias experiências de leitura. Os alunos negociavam e interpretavam a subjetividade da personagem e as intervenções cínicas do narrador Rodrigo S. M. dentro de suas perspectivas sociais e culturais.

De repente me dei conta que eu não dominava mais o tema. Embora me julgasse uma leitora mais preparada para aquela leitura (como aliás deveria ser), passei a  simplesmente guiar meus alunos para que cada um descobrisse de forma autônoma sua abordagem.

À medida que escolhíamos passagens e justificávamos nossas escolhas, estávamos nos ajudando a desconstruir e compreender a narrativa.  Ao terminar o curso descobri que eu sabia mais sobre o texto do que antes e me sentia, inclusive, mais apta a ensiná-lo melhor numa próxima oportunidade.

Nunca Paulo Freire fez tanto sentido. Mas, principalmente, nunca senti na prática, de forma tão exemplar, o que antes me parecia mera terminologia metodológica: construir conhecimento não é mero jogo de palavras.

A reflexão sobre o ato de ensinar como atividade dialética, em que não exista a presunção de que o estudante-aprendiz seja simples receptáculo do conhecimento nem o professor se represente como fonte de toda sabedoria, se contrapõe aos dois mitos dos quais tratam essa série: de um lado o professor como detentor absoluto do conhecimento, de outro um profissional visto como uma entidade diminuída frente ao acesso a conteúdos digitais supostamente educadores.

Enquanto qualquer interação dialética, seja com amigos ou familiares, pode resultar em conhecimento e aprendizado, como docentes somos educados (ou deveríamos ser) a despertar em nossos estudantes o interesse não somente por aquilo que se aprende mas o de desejar aprender.

A parte mais difícil da tarefa do ensinante, portanto, é a de guiar seus estudantes de forma que eles possam ir além do conteúdo, elaborando suas indagações e adicionando suas próprias experiências e saberes.

Lembrou de alguma experiência similar que aconteceu com você? Tem algo a acrescentar ou criticar? Mande pra gente, participe da conversa e não perca o próximo post da série em que vamos falar sobre as peculidaridades dessa profissão pra lá de especial.

Referências: “Carta de Paulo Freire aos Professores”,  Estudos Avançados, vol.15 no.42 São Paulo May/Aug. 2001;
Foto em destaque: CCo License/ Pexels

 

 

2 comentários em “O papel de quem ensina, em tempos de Google (2)

  1. Adorei o texto e o vídeo de apresentação!! essas discussões são muito oportunas e urgentes.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que bom ter seu retorno tão positivo, Fá! Vá pensando em temas que te interessam e sugira. Obrigada!

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