Os segredos da primeira vez

 

Antes que pensem que vamos tratar de algum tema mais caliente, sinto decepcioná-los… Hoje falamos da primeira vez em que uma pessoa se vê diante de uma classe . Como é pisar numa sala de aula pela primeira vez como professora ou professor? Para quem já passou por isso, que conselhos daria? Como fazer da estreia uma experiência positiva?

                           
Dicas para começar a carreira sem estresse

Durante anos, quase todo semestre, na noite anterior a volta às aulas, eu sonhava que me perdia no prédio da universidade. O sonho tinha pequenas variações mas me lembro que quase sempre envolvia uma escada que não levava a lugar algum e que fatalmente me faria chegar atrasada. 

Imagino que ao invés de contar esse pesadelo aqui, melhor seria levá-lo para ser analisado em terapia, mas com essa historinha pessoal minha intenção é ilustrar que mesmo depois de anos de experiência, pelo menos para mim, é natural sentir uma certa ansiedade antes de me colocar diante de uma nova classe, de um novo grupo de alunos.

Muitos docentes têm a chance de praticarem em estágios ou programas de apoio à licenciatura como o PIBID, mas grande parte só encara a responsabilidade de uma classe autonomamente já como profissionais.

Por isso compreendo perfeitamente a angústia de uma professora que recentemente me escreveu, muito assustada, pedindo consultoria. No caso dela, reforçando a insegurança normal, havia as opiniões (muitas delas não solicitadas) sobre o que aconteceria na sala de aula. Segundo me contou, disseram que os alunos da escola onde ela lecionaria eram terríveis, que não iriam respeitá-la e, pior, por ser professora de Artes ninguém a levaria a sério.

O que você diria para um (a) colega que está começando?

Não sei o que vocês diriam e, aliás, adoraria saber. E para ser honesta minha resposta se baseou mais na intuição e na minha jornada como professora do que propriamente em conhecimento técnico. Relaciono abaixo algumas das ideias que passei para a jovem professora, e adiciono outras que aprendi nos últimos dias enquanto pesquisava para escrever esse post.

Aqui vai meu pequeno mapa de sobrevivência:

  • O primeiro conselho que me parece fundamental é não permitir que lhe imponham uma experiência como se fosse necessariamente se repetir. Boa ou ruim, cada experiência é única. Permita-se descobrir por si só como você vai viver a sua.
  • Como diz uma parábola budista que há muito tempo rola por aí, ninguém é obrigado a aceitar um presente . Na prática essa ideia funciona bem também: os alunos são terríveis, a escola é horrível, ninguém respeita professores de Arte? Antes de aceitar essas verdades (presentes!), veja por si. Pode ser que você confirme as advertências. Por outro lado, há chances de que nem todos os alunos sejam horríveis, de que os problemas da escola não te impeçam de fazer seu trabalho e de que, por sorte, seus alunos sejam artistas à espera de serem descobertos. Otimismo demais pode parecer ingenuidade, mas pessimismo, ainda mais quando imposto a outras pessoas, é chato pra caramba!
  • Tenha um plano de aula SUPER detalhado. Não é exagero. Como você ainda não se sente confortável diante da classe, e tem medo de não saber lidar com os brancos e os imprevistos quase inevitáveis, o antídoto é ter um roteirinho com tudo o que você quer apresentar naquela aula. Marque cada detalhe, mesmo que na hora inverta a ordem das coisas, pule algumas… E simplifique, use palavras chaves para não se perder.
  • Tenha cuidado apenas para não virar uma metralhadora de palavras. Muita gente quando fica nervosa não consegue parar de falar e, com isso, depois de alguns poucos minutos perde a atenção dos alunos. Por isso, lá no seu amado plano de aula, não se esqueça de anotar que deve fazer perguntas a seus alunos; isso vai permitir a eles que se apresentem, e a você a oportunidade de conhecê-los.
  • Escolha bem as atividades do primeiro dia. Comece com algo marcante. Por anos, quando eu ensinava um grupo pela primeira vez, começava com uma canção. Quando a coisa funcionava direitinho, eles entravam já ao som de uma música que, de alguma forma, dava o tom do curso.
  • Em vários textos que li, a dica é começar a ensinar desde o primeiro dia para mostrar que seu curso é sério e que você sabe o que está fazendo. Concordo, mas não se esqueça que isso não significa jogar um conteúdo pesadão logo de cara. Para a professora de artes, por exemplo, sugeri que ela começasse com o próprio conceito de ARTE. Que tal cada aluno descrever, oralmente ou por escrito, o que lhe vem à cabeça quando ouve essa palavra? Se a classe for grande, podem trabalhar em grupos.
  • Nesse sentido, pode ser um bom apoio uma bela apresentação de slides com algumas obras famosas e outras nem tanto. E para causar alguns questionamentos misturar imagens de vários tipos de arte, não somente as visuais.
  • Outra ideia é usar serviços como o mentimeter ou o kahoot . No primeiro com o código da apresentação, cada aluno vai poder contribuir com uma palavra. Você pode pedir, por exemplo, que cada um escreva o nome de um artista plástico que conhece ou ouviu falar. Já com o kahoot, você pode preparar umas perguntinhas e com o código do seu questionário, eles participariam. Essa ideia é legal porque serve como termômetro para entender em que nível estão. Mas lembre-se que para participar desses jogos, todos precisam ter telefones celulares e você tem de ter infra-estrutura na sala, com internet e tela. Por tudo isso, melhor deixar para um pouco mais tarde na semana.
  • Falando nisso, cheque a estrutura da escola onde você vai trabalhar. Se não conhece o lugar, visite antes para aprender sobre serviços de cópia, o que funciona, e até coisas mais básicas como onde fica o banheiro. 
  • A menos que você tenha bastante desenvoltura e experiência com o público, é natural um certo tremor, as mãos um pouco suadas… Tente, se for seu estilo, brincar com a situação;  ajuda a relaxar e coloca os alunos, geralmente , do seu lado. Pergunte por exemplo quem é novo na escola? Diga que estão em situações parecidas… Acredite, aos poucos, você vai encontrar seu tom, sua persona.

E antes de terminar tenha sempre em mente que como qualquer outra primeira vez na vida, esta não te define. Se for maravilhosa, celebre! Se for um desastre, respire fundo, analise onde precisa mudar e tente novamente. Não se deixe abater pelo mito da primeira vez perfeita, porque isso é só mito mesmo.

E boa sorte! 😉

Você tem sugestões para melhorar esta lista? Compartilhe sua experiência e suas ideias! 


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Fotos: Zhu Peng CC0 (destaque)/ Pexels CC0

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