Sorria, você não está sendo filmado!

Câmera fechada, mente aberta, e os meandros da etiqueta no mundo escolar virtual.

Desde o momento em que escolas do mundo todo tiveram de incluir as aulas online à sua rotina, estabeleceu-se genericamente que nenhum estudante deve ser forçado a mostrar-se numa câmera. O incômodo de falar sem ver a quem se fala foi apenas mais um a ser enfrentado por professores que, em muitos casos, estavam tão assutados com a nova realidade quanto seus alunos.

A questão que se colocava e que ainda hoje tem validade é que não podemos tratar todos os contextos educacionais como se fossem o mesmo. Eu me lembro de ter apoiado totalmente que alunos adultos, em cursos de língua estrangeira em grandes corporações ou com poucos colegas, mantivessem suas câmeras abertas em respeito a seus tutores.

Logicamente essa realidade é diametralmente oposta quando falamos de crianças e especialmente daquelas com agravantes como situação doméstica complicada ou com equipamentos e/ou conexão à Internet muito ruins.

Uma discussão desse tipo foi menos intensa no Brasil por conta da própria precariedade do país. Quando turmas inteiras se comunicam com seus professores somente por grupos de WhatsApp e o material que recebem é majoritariamente para ser impresso em algum momento, discutir a ética do uso da câmera parece a última das prioridades.

O tema, no entanto, tem sido debatido em outros lugares. Nos EUA, na volta às aulas em agosto, portanto depois de um tempo de “prática” com a realidade da pandemia, muitas escolas públicas passaram a fornecer tabletes ou acesso a computadores para famílias que antes não tinham como se conectar às aulas. E nesse sentido foi preciso também estabelecer de forma mais clara como as coisas aconteceriam, ou seja: regras de funcionamento e convivência, ainda que à distância.

Naquela ocasião, Tabitha Moses, uma doutoranda da Wayne State University (Detroit, MI) publicou no site The Conversation suas razões para que as câmeras dos estudantes do ensino fundamental ao superior continuassem desligadas. Ela, pesquisadora de comportamento e cérebro, enfatiza que o ensino remoto apresenta alguns desafios sérios para os alunos, embora concorde que do ponto de vista da saúde pública seja a melhor opção neste momento.

Por trás da câmera

A câmera ligada durante as aulas, Moses aponta, pode resultar em: aumento de ansiedade e estresse; fadiga (em inglês apelidada de Zoom fatigue); obrigação adicional ; invasão de privacidade; e limitações de acesso, financeiras ou de outra ordem. Para ver o artigo completo, acesse aqui.

A pesquisadora explica que o esforço de estar concentrado o tempo todo, olhando para a tela, causa, além de desconforto, um sentimento de que todos estão te assitindo. Assim, algo que deveria ajudar na concentração acaba trabalhando contra isso, porque a pessoa fica focada nesses detalhes e não no que está sendo apresentado na aula.

Outro ponto interessante levantado por ela é que a fadiga da interação online é diferente do nosso cansaço normal porque nas nossas relações pessoais, presenciais, podemos ler a linguagem corporal das pessoas e isso nos ajuda a compreender melhor um contexto. Aprendemos muito sobre as pessoas por meio da comunicação não-verbal.

Já no meio online isso não existe e temos de dirigir nosso foco de atenção à comunicação verbal, o que é mentalmente exaustivo. Sem contar que temos de estar ligados a múltiplas tarefas: atentos ao chat, ao novo formato do conteúdo, aos problemas de conexão… A mudança entre tarefas que requerem habilidades diferentes todo o tempo prejudica a memória e a qualidade no desempenho dessas e de outras habilidades.

Vida doméstica exposta

O artigo nos lembra que muita gente, estando em casa, tem de desenvolver tarefas adicionais concomitantes à aula, como cuidar de irmãos menores ou filhos. Claro que idealmente todos os estudantes deveriam contar com um ambiente quieto e sem interferências, mas o período da pandemia tornou isso ainda mais complicado, com creches fechadas, outros membros da família trabalhando de casa ou desempregados.

Essa situação também desencoraja a exposição dos alunos que se sentem invadidos em sua privacidade, constrangidos em mostrar sua casa e, mais sério, pode sem querer abrir espaço para bullying digital. A imagem de alguns alunos pode ser facilmente captada e usada de forma inapropriada. Sem mencionar casos mais sérios, judiciais, em que a criança e sua família, por motivos legais, estejam correndo algum tipo de risco e não possam ser identificados .

Como se não bastasse, há ainda fatores como a falta de acesso a equipamentos de qualidade, como câmeras de baixa qualidade, e conexões fracas que ficam ainda piores com o o uso de vídeo . A autora mencionada aqui reconhece que os problemas apontados por ela não são exaustivos, portanto várias outras questões podem (e devem) ser levantadas. Com toda certeza, porém, já temos material para uma reflexão que pode nos fazer caminhar para soluções futuras.

A seguir, alguns pontos que valem a pena ser observados:

NÃO dê pontos extra para estudantes que ligam a câmera, nem aliene ou puna aqueles que não a abrem.

SIM Estimule a participação por meio do chat, de reações com palavras-chave ou emojis; ponha todos os microfones no modo mudo, mas vez ou outra chame os alunos para que participem, como você faria numa aula presencial; peça para que coloquem uma foto de perfil, um selfie favorito, por exemplo, assim você tem a imagem de cada aluno no seu campo de visão e não se sente tão “só”; use ferramentas digitais adicionais como Jamboard ou padlet, por exemplo, para que todos se manifestem e participem.

Você tem aprendido algo com essa fase? Conte pra gente!E que todos saiam mais fortes e criativos deste momento tão difícil!

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