Autonomia e autorregulação na educação: uma conversa urgente

professores e alunos estão prontos para o aprendizado autodirigido?

Um tempo atrás fiz um mini-webinário sobre motivação. Em princípio eu estava com medo de soar como um desses gurus de auto-ajuda, mas percebi que a ideia era me concentrar em identificar e usar mecanismos para encontrarmos motivação dentro de nós mesmos e não necessariamente atrelada a estímulos externos, como notas, prêmios ou tapinhas nas costas. Meu interesse era, portanto, a chamada motivação intrínseca. Foi assim que me decidi a falar sobre três fatores básicos deste tipo de motivação : a autonomia, o uso das hablilidades e competências, e os relacionamentos humanos.

Embora teoricamente a gente até conheça esses princípios, no dia a dia, diante das dificuldades que se apresentam e se acumulam, acabamos não garantindo que eles sejam devidamente observados e nutridos. Mais recentemente, ao ensinar um curso no qual falhei terrivelmente na motivação dos meus alunos, me debrucei novamente sobre a questão e, agora, terminado o semestre escolar, cheguei à conclusão que a falta de autonomia de meus estudantes pode estar na base de sua ausência de motivação. Foi pensando nisso que sugeri à coordenação do curso uma transição do ensino online síncrono para o modelo assíncrono, o que de certa forma pode parecer radical.

Quem trabalha com a modalidade online talvez saiba que ao contrário do que muita gente pensa, um curso assíncrono exige muito mais trabalho por parte dos docentes responsáveis. O trabalho só diminui à medida que o curso esteja bem estruturado e que tenha sido devidamente testado. Depois, vêm os ajustes e só com o tempo o curso se torna mais facilmente manejável.

O grande paradoxo nessa tomada de decisão é que se por um lado autonomia é um fator motivador, por outro há de se esperar que os alunos já sejam suficientemente autônomos para conduzirem o plano de aprendizado de um curso assíncrono, percorrendo e cumprindo cada etapa com responsabilidade. O sucesso da empreitada só acontece se o aprendente se dispõe a assumir um compromisso diante do curso. Ser agente do seu próprio aprendizado é gratificante mas demanda uma atitude mais séria do que se imagina.

Pois bem, eis o meu dilema. Se a autonomia é premissa para a motivação, como motivá-los a serem autônomos?

Antes de tudo, é preciso lembrar de uma terminologia que ainda aparece timidamente no terreno da educação mas que é crucial quando pensamos em aprendizagem autodirigida: autorregulação. De forma concisa, podemos definir a autorregulação como uma habilidade que nos permite controlar e gerenciar nossos pensamentos, emoçoes e motivação por uma série de estratégias pessoais, que nos leva a alcançar nossos objetivos e, no caminho, a evitar situações e resultados indesejados.

Dá pra inferir que é uma habilidade pra lá de poderosa. Aliás, alguns estudiosos suspeitam que se trata mais de um conjunto de habilidades e que por isso mesmo não é muito fácil de desenvolver e manter.

É inegável que a autorregulação tem grandes implicações no desenvolvimento pessoal, no ajuste social e no bem-estar geral da pessoas e, quando levada para o autoaprendizado, pode ser determinante sobre quem vai alcançar seus objetivos de aprendizagem e quem vai ficar pelo caminho.

Foto por Jens Johnsson em Pexels.com

Isso porque, no plano da educação, a autorregulação demanda que os estudantes estruturem, monitorem e avaliem o próprio aprendizado. O aluno também delimita suas necessidades, planeja e cumpre as etapas de estudo e nesse sentido tem condições de avaliar todo o processo para verificar o que funciona ou não.

A autorregulação como teoria da aprendizagem estabelece algumas etapas:

  1. Delimitação de necessidades: a partir de autorreflexão e autoconhecimento, consegue identificar quais são suas necessidades de aprendizado;
  2. Planejamento de caminhos e etapas de estudo: tendo as necessidades de aprendizagem claras, o estudante agora pode estruturar o caminho que seguirá nos estudos, definindo prioridades, elaborando planos de ação, indentificando a melhor forma de apreender o conteúdo.
  3. Cumprimento de etapas definidas: o estudante também deve garantir que as etapas planejadas para a aprendizagem sejam viáveis, para que possa cumpri-las da maneira prevista – realizando, se necessário, algumas alterações ao longo do processo;
  4. Avaliação do planejamento : ao fim do cumprimento das etapas, o estudante pode avaliar o processo e identificar melhorias a serem implementadas nas próximas jornadas de aprendizado.

A pesquisa nessa área tem sido positiva ao evidenciar que ao estimularmos a autonomia levamos os estudantes a se envolverem com o que estão estudando —pois passam a ver o estudo como algo sob seu controle ao invés de controlado pelos professores  e, como consequência, o conteúdo é retido de maneira mais eficaz , resultando em melhor desempenho acadêmico.

São quatro também as dimensões trabalhadas quando se adota a autorregulação:

Cognitiva/metacognitiva

Abrange as estratégias cognitivas que apoiam os aprendentes na absorção do conteúdo, tais como fazer resumos e fichamentos, criar mapas mentais, sublinhar textos, entre outros recursos.

As estratégias metacognitivas, por sua vez, estão associadas ao planejamento dos momentos de estudo, como organização da mesa, planejamento da semana, assim como reconhecer quando pedir ajuda a colegas e professores.

Motivacional

Como eu já tinha de alguma forma antecipado, a dimensão cognitiva/metacognitiva depende bastante da dimensão motivacional, já que as técnicas de estudo e organização estão diretamente associadas à motivação do estudante em aplicá-las.

E daí vale repetir as distinções entre motivação extrínseca e intrínseca, lembrando que embora a primeira venha da espontânea vontade de aprender sobre determinado tema, a extrínseca, em que o aluno busca aquele aprendizado para obter boas notas, também precisa ser considerada.

É por isso que a dimensão motivacional interfere diretamente no modo como os alunos estudam e planejam seu programa de estudo. Seus objetivos variam e, com eles, e isso se reflete na forma como se organizam.

Emocional/afetiva

O impacto das emoções no processo de aprendizagem é relevante porque os estados emocionais se manifestam de maneira distinta em cada estudante e além disso variam consideravelmente em cada etapa do estudo (por exemplo, antes de uma avaliação importante; ou depois de uma mudança de módulo).

Esse impacto depende de questões internas do estudante (como o controle emocional próprio) e externas (como apoio de familiares, professores e das próprias instituições de ensino às quais se filiam) e, claro, pode ser positivo ou negativo. A dimensão emocional/afetiva da aprendizagem vincula-se ao autoconhecimento do estudante, e à sua capacidade de regular/controlar as próprias emoções, assim como sua vontade de melhorar e evoluir.

Social

A dimensão social da aprendizagem tem a ver com o ambiente em que o estudante se insere: família, contexto socioeconômico, amigos, professores, dentre todos os fatores externos que afetam o cotidiano de cada estudante. Nesse caso, como nos anteriores, há forte influência das outras dimensões.

Voltando ao princípio deste post, continuo na dúvida sobre como adotar uma modalidade de ensino que depende da autonomia, sem ter certeza de que meus alunos possuem a habilidade da autorregulação, o que nos leva a uma outra questão: ensinar essa habilidade deve ser premissa para a adoção de um sistema tão independente como o aprendizado online assíncrono?

Um trabalho que vai além do espaço da escola
Foto por PNW Production em Pexels.com

A questão é profunda. De tal forma que talvez deva ser explorada num outro post, para evitar minha tendência aos textos gigantes. O fato é que se você for consultar revistas científicas estrangeiras vai perceber que o tema da autorregulação está em grande parte ligado à formação que recebemos em família, desde o berço. E isso não é exagero. É evidente que temos de trabalhar com o que dispomos. Assim, em qualquer nível que se ensine, é possível, sim, introduzir estratégias que estimulem e potencializem as habilidades que farão de nossos estudantes pessoas mais assertivas em suas escolhas e defintivamente mais capazes de autodisciplina. No entanto, a eficácia e a velocidade com que o processo se desenvolve têm relação direta com o que veio antes, ou seja, com o nível de autorregulação que eles já apresentam em suas experiências fora do ambiente escolar.

Daí a importância de pensarmos educação no sentido macro. Uma pessoa bem educada (holisticamente, interalmente) forma famílias melhores também. Isso sem nem adentrar pela importância enorme da Educação Infantil, sempre tão ignorada e desvalorizada na nossa sociedade, especialmente na sociedade brasileira.

Vale lembrar que o professor português José Pacheco tem delcarado há anos que o modelo de ensino baseado na ‘aula ‘ é anacrônico. E algumas escolas já vêm adotando a ideia com trilhas de aprendizado autonômas, ainda que apoiadas por tutores. Então a ideia jea está sendo praticada e quase sempre com sucesso.

Enfim, não sei como vai ser minha experiência assíncrona e confesso temer que a falta de motivação detectada seja também indício de ausência de autorregulação. Mas há de se tentar. Desejem-me sorte!

Fontes:

Alabau, Irene. Autorregulação o que é, exemplos e exercícios. Psicologia Online.

Saraiva Educação. Saiba o que é e como desenvolver a autorregulação da aprendizagem.

Soderlund, Ashley. 7 Science-backed ways to teach your child self-regulation. Nurture and Thrive Blog.

The Education Hub. The Importance of Self-Regulation for Learning (School Resources).

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