A roupa que te veste

Como falar de moda consciente e sustentável na escola, no mês da Fashion Revolution.

Todo mês de abril acontece o evento mundial chamado Fashion Revolution. Este ano as atividades estão agendadas para a semana de 18 a 24 de abril, dia do aniversário da tragédia de Rana Plaza, em Bangladesh, em 2013. O incêndio neste prédio, que matou mais de 1000 pessoas e feriu outras 2000, atingiu cinco fábricas de roupas que ofereciam péssimas condições de trabalho na produção de vestuário para marcas importantes da Europa e dos Estados Unidos. Foi esta tragédia que aliás inspirou a realização do evento, que atualmente acontece em mais de 100 países, incluindo o Brasil. Eu falo um pouco mais sobre isso neste artigo de alguns anos atrás: Quem fez a minha roupa?

No Brasil, o movimento também tem crescido. Confira a agenda da Fashion Revolution Brasil e como participar: AQUI. Muitas das atividades consistem em simplesmente ajudar na divulgação da ideia de uma moda consciente, em que se questione quem produz a roupa que você veste, em que condições e quais os efeitos dessa indústria no meio ambiente.

Todos esses temas podem e, na verdade, deveriam ser abordados na escola. Afinal é importante chamar a atenção de estudantes e docentes para um tema que nos afeta a todos diretamente.

Neste post, vou apresentar algumas sugestões de abordagens na esperança que sirvam de base para várias ações e suas subsequentes adaptações, dependendo da realidade de cada escola e da idade de cada grupo.

Aspectos históricos e sociais da vestimenta

Os professores de História têm várias possibilidades de abordagem: a questão delicada e importante durante o longo período escravocrata no Brasil é uma delas. Aos seres humanos escravizados, que trabalhavam fora do ambiente doméstico, negava-se o simples direito de vestir; a roupa oferecida era escassa e, detalhe , os escravizados em sua maioria não recebiam sapatos. A roupa no Brasil foi (e ainda é) sinal de status. E naquele momento era mais uma forma de humilhação, que dificultava a vida no dia a dia de gente que já sofria muito. Este tópico pode inclusive nos fazer pensar nos desdobramentos de ter a roupa como marca de distinção em nossa sociedade até os dias de hoje.

Um outro exemplo que vale estudo seria o vestuário das mulheres de classes abastadas em várias sociedades do mundo ocidental, sobretudo no século XIX. Com seus espartilhos excessivamente apertados e as chamadas crinolinas (as armações gigantescas usadas sob as saias), vestir-se era um processo complicado para as mulheres.

Nesse sentido, filmes de época e uma boa parceria com os professores de Português, que poderiam selecionar algumas obras para leitura como suplemento aos estudos em história, seriam bem interessantes. E para uma experiência multidisciplinar, as aulas de artes podem propor uma pesquisa sobre a evolução do design de moda e como corresponde e representa cada período da história humana. Uma bem planejada visita a um museu para completar a atividade não seria nada mau!

Os efeitos no planeta

Ainda na perspectiva multidisciplinar, as áreas de ciências podem propôr uma investigação sobre como a produção de tecidos e outros artigos relacionados à moda afetam negativamente o ambiente. A indústria da moda é responsável por 3% da emissão de CO2 do mundo ( sim, isso é bastante!), e alguns estudos apontam que pelo menos 80% do que se produz acaba em aterros sanitários, em rios, ou são incinerados, causando ainda mais poluição. Isso tudo enquanto em muitas partes do mundo há quem não tenha o suficiente para se vestir.

Um grande evento (e colaborativo!)

Todas as atividades em sala de aula podem estimular o envolvimento, especialmente de alunos adolescentes, em campanhas nas mídias sociais cobrando mais consciência e, por parte das empresas, mais transparência sobre seu processo produtivo. Isso significa nos assegurar que a produção não envolve trabalho análogo à escravidão ou em condições degradantes . Além disso, precisamos saber o tipo de material e tecido usado em cada roupa. Um bom começo é incentivar as pessoas a lerem as etiquetas de suas roupas.

Mas que tal fazer algo mais pragmático e não virtual? Uma ideia que, com tempo e organização adequada, pode ser um sucesso e quem sabe se tornar um evento anual, é a realização de um grande brechó com o apoio de toda a comundiade escolar. Dividida em várias fases e com grupos responsáveis por cada uma delas, o brechó seria útil não só para colocar em uso roupas em bom estado a preços módicos, como também como um recurso para arrecadação de dinheiro a ser usado em um projeto que beneficie a escola.

Foto: Ron Lach, Pexels

Alguns cuidados a serem observados, para que o brechó seja um sucesso:

  • – As roupas doadas ao brechó devem estar em bom estado e já limpas;
  • – Escale uma equipe para pensar na melhor forma de expor as peças, isso valoriza e embeleza o evento;
  • – Estabeleça preço úncio para peças parecidas. Isso facilita o trabalho das equipes de venda e de quem compra. Uma ideia é vender cupons antecipadamente com determinado valor que o visitante pode gastar no brechó.
  • – Lembre-se que o evento deve ter preços baixos para que as pessoas que precisam realmente possam comprar as peças;
  • – Não deixe a mensagem da moda consciente se diluir no brechó. Busque estratégias de conscientizar seu público da importância de reusar e reciclar.
  • – Crie um ambiente agradável para seu evento: música, uma área arejada da escola para permitir distanciamento social adequado e água potável disponível.
  • – Todo a roupa que não for vendida deve ser doada para uma organização da preferência de todos;

O trabalho colaborativo é esencial. Não torne o evento algo que termine sendo responsbilidade dos professores somente. Pode ser uma semente plantada por eles e coordenadores pedagógicos, mas cuidada pelos alunos. Monitorar é importante, mas o protagonismo deve ser dos estudantes.

Nunca se esqueça que cada etapa do programa deve ser de responsabilidade de um grupo e que todos devem estar na mesma sintonia. Professores de matemática podem também aproveitar a ocasião para trabalhar porcentagem, gráficos , custos em relação ao valor total arrecadado , estatísticas…Há muito aprendizado envolvido nesse trabalho em equipe, que vai além das disciplinas mencionadas aqui.

Já fez algo parecido? Tem outras ideias? Conte pra gente

Imagem em destaque: Cottonbro/Pexels

2 comentários em “A roupa que te veste

  1. Tania Josefa Gomes da Silva 15 de abril de 2022 — 08:30

    Selma, sempre inspiradora e educativa. Que privilégio ter você por perto. Obrigada🌹

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    1. Que comentário mais simpático, Tania. Prezo muito seu constante apoio, obrigada!

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