Como escolher melhor

Cada uma das nossas escolhas pode dizer muito sobre quem somos, sobre a informação que temos antes de tomar uma decisão e sobre as condições que nos limitam. Mas também pode mostrar quem queremos ser.

Como você faz suas escolhas? Você tem um método para tomar decisões importantes ou age por impulso? É possível recorrer à ciência para aumentar as chances de fazer uma escolha correta? Talvez este seja o texto que começa com o maior número de perguntas já escrito para este blog, mesmo considerando minha mania de perguntar (!), e isso dá bem a medida de que escolher é complexo. Como tem de ser.

Sempre gostei de filmes e livros que brincam com a ideia do “e se…”, ou seja, como seria minha vida se por um mero acaso eu tomasse este caminho e não aquele. Na ficção, quase tudo se resolve bem ao final, mas a vida real pode nos reservar muito arrependimento e um sentimento de que o caminho escolhido, pode, de fato, não ser o melhor.

Por algum tempo ensinei um curso em que os alunos liam livros baseados em histórias reais. O primeiro, Depois daquela viagem, de Valéria Piassa Polizzi, conta como a autora contraiu Aids em sua primeira relação sexual, aos 16 anos, num tempo em que ser soropositivo para HIV era quase uma sentença de morte. Outro livro do qual lemos alguns capítulos foi Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva. Aos 21 anos e embrigado, Marcelo acidentou-se seriamente enquanto se divertia com os amigos, na região próxima à universidade onde estudava. Ele mergulhou num riacho e bateu a cabeça numa pedra, fraturando uma vértebra (a quinta cervical). O acidente o deixou tetraplégico.

As discussões giravam em torno de alguns perigos aos quais nos expomos na juventude por conta de escolhas desastrosas, seja por falta de informação e de experiência seja muitas vezes meramente porque nos sentimos invencíveis, no auge da nossa vitalidade, como se nada de ruim pudesse nos alcançar.

Na segunda parte do curso, trabalhamos com O que é isso companheiro, de Fernando Gabeira, e Cem Dias entre Céu e Mar, de Amyr Klink. Gabeira conta de sua experiência como membro de um grupo político que lutava contra a ditadura militar no Brasil e, particularmente, de sua participação no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969. Já Klink relata a incrível viagem que fez num pequeno barco a remo entre a Namíbia, na costa africana, e a Bahia, na costa brasileira.

Dessa vez os relatos são de dois adultos. Apesar de muitas dúvidas, Gabeira parece ter se juntado aos militantes do MR8 por que não via outra maneira de fazer oposição à ditadura, num momento em que os direitos democráticos foram violentamente suprimidos. Klink, por sua vez, pensou em cada detalhe de sua escolha, aparentemente maluca, antes de fazer a longa travessia marítima e com isso realizou um sonho.

Foto por Pixabay em Pexels.com

Espero que meus alunos tenham aprendido muito de língua portuguesa com essas leituras, mas não tenho dúvidas de que os questionamentos que surgiram a partir das perguntas que eles trouxeram para o grupo foram fantásticos. Cada turma, em anos diferentes, me fazia rever as opções dos personagens dos livros, e mesmo questionar as nossas escolhas cotidianas, sob uma perspectiva diferente.

Quase sempre chegávamos à conclusão de que era muito difícil saber como teríamos agido no lugar de cada um dos escritores, porque qualquer uma de nossas escolhas é profundamente orientada por nossa educação, cultura, personalidade e pela informação que temos a mão. É sempre fácil (e injusto) julgar nossas próprias decisões posteriormente porque agora sabemos as consequências daquela escolha, a qual fizemos num momento em que isso ainda era um mistério.

Foi também interessante observar como cada um compreendia mais ou menos as escolhas dos escritores, dependendo do quanto podia ou não se reconhecer em suas ações e reações. Você pode imaginar como foi desafiador para mim fazer sentido da opção de Amyr Klink, por exemplo, uma vez que não sei nadar e a simples ideia de estar num barquinho longe demais da praia já me apavora. Ao mesmo tempo, quando aprendi sobre a paixão que ele nutria desde a infância pela navegação e de suas memórias afetivas de Paraty pude pelo menos aceitar que, embora aquele mundo fosse muito distante do meu, tinha de ser respeitado como componente fundamental da escolha de Kink.

O lado em que bate a luz

Há um belo parque perto da minha casa, o qual visitamos com frequência. A pequena floresta muda muito, ainda que sutilmente, o que nos dá o privilégio de ter várias versões da mesma vegetação, dependendo do clima e da estação do ano.

Mesmo assim, me surpreendi uns dias atrás com o verde ‘diferente’ de uma árvore em particular. O que me intrigava é que depois de ter visto a árvore neste fim de primavera muitas vezes, a cor agora me parecia inteiramente nova. Observei então não haver nenhuma razão para a árvore ter mudado de cor e o que a fazia parecer excepcionalmente brilhante naquele dia tinha como causa a luz que batia sobre ela. Aquela específica coloração era puramente relacionada à qualidade da luz da tarde que a cobria e da impressão que isso causava sobre a minha percepção.

Parece besteira mas por estar tão envolvida com o tema deste post, imediatamente pensei quantas vezes escolhemos algo baseados num contexto que pode ser tão fugaz como a luz do sol. Quantas vezes damos um passo importante influenciados por especificidades momentâneas que não resistem a um curto tempo de reflexão e análise?

Não quero tornar esta conversa filosófica demais, embora eu não veja nenhum problema nisso. Minha proposta é que a gente pense em como podemos explorar todo o potencial das pequenas descobertas para tornar uma decisão a melhor que pode ser tomada naquele momento, naquele contexto e com a informação da qual dispomos.

Indo um pouco além, neste momento em que sabemos que devemos educar para o mundo, ajudando a desenvolver as habilidades socioemocionais de nossos alunos, de que forma podemos apontar ferramentas e caminhos para que também eles se sintam mais preparados para as pequenas e grandes escolhas que os esperam a cada esquina? Há muito a se falar e pesquisar sobre isso e entendo que uma boa ideia seja começar consigo próprio.

Foto por cottonbro em Pexels.com

Ciência e emoção

Há uma tendência grande em culpar nossas emoções por decisões erradas ou mal pensadas. Mas precisamos reconhecer que muita da “culpa” de algumas das furadas em que nos metemos e mesmo de decisões que serão prejudiciais a outras pessoas são explicadas pela ciência, ou seja, têm uma base bem racional.

Como não sou uma especialista não vou me alongar nesse assunto, vale porém enfatizar que os chamados “vieses cognitivos” são responsáveis por algumas escolhas erradas e isso é mais do que ser emocionalmente vulnerável; tem a ver com a forma como nosso cérebro funciona. Muita gente costuma definir o viés cognitivo como um filtro ou lente que distorce ou prejudica nosso julgamento.

Na prática, esses vieses funcionam como um atalho para resolvermos uma questão. No passado da humanidade, quando as decisões eram básicas, esses mecanismos nos ajudavam a sobreviver, mas num mundo complexo como o que vivemos hoje eles acabam causando mais problemas do que trazendo soluções.

Uma forma de não permitirmos que eles anuviem nossa visão dos fatos é estarmos muito atentos a seus truques. Pense, por exemplo, num docente que se deixa levar pela simpatia que tem por determinado aluno na hora de avaliar seu trabalho e por aquele que associa determinado estudante a uma experiência desagradável que o dito cujo tenha causado no passado. Em ambos os casos, esses vieses afetam a clareza da avaliação, julgando um momento que não tem mais nada a ver com aquele do passado. O resultado pode ser uma avaliação injusta e, pior, uma que reforça preconceitos.

Coisas até mais miúdas também interferem sobre uma decisão, quando um dos vieses tem a ver com seu contexto temporal. Quantas vezes, por exemplo, você já fez uma péssima escolha porque estava com fome? E não pense que isso é bobagem.

O escritor americano Paul Auster conta que se envolveu num acidente de carro sério, no qual sua esposa se machucou, porque estava aflito pra chegar em casa e fazer xixi. Por conta dessa urgência, fez uma entrada numa rua à esquerda, calculando mal a velocidade de um carro que vinha na outra direção.

A simples consciência da existência desses vieses cognitivos já provoca e nos induz a uma reflexão frutífera que pode afetar positivamente uma escolha.

Ainda sobre a ciência, vale inspirar-se numa rotina de metodologia científica na qual começamos pela hipótese e a ela tentamos aplicar todas as possiblidades para confirmá-la, ou não. É verdade que, mesmo usando este método, vamos sempre trabalhar cada hipótese com os recursos que temos disponíveis. Por outro lado, assim como na ciência, isso nos dá a oportunidade de especularmos sobre possíveis cenários e de realmente aprendermos a partir da observação dos erros para continuar melhorando e aperfeiçoando nossa investigação.

O fator aspiração

Não muito tempo atrás, Joshua Rothman, um jornalista da revista americana The New Yorker fez um balanço da literatura recente em língua inglesa que discute a arte ou a ciência da tomada de decisões. Obviamente, um tema tão interessante já foi abordado por psicólogos, filósofos, entre outros experts, e cada visão nos oferece ainda mais perspectivas e conhecimento com base em estudos e evidências. Em sua análise, ele nos lembra que muitas vezes uma pessoa tem mais rigor para decidir que filme vai assistir no Netflix do que em que cidade vai morar. Loucura? Bem, pense num lugar mágico o qual a pessoa visitou, com alguém especial, onde ela tomou um pouquinho de vinho a mais e tudo parecia perfeito… Quer maior influenciador de uma decisão?

Felizmente, neste caso, a maioria de nós tem tempo para repensar a decisão tresloucada no dia seguinte, ainda com um pouco de dor de cabeça. Mas como eu disse ao princípio, muitas de nossas decisões na vida são condicionadas por fatores que fogem ao nosso controle e de uma forma ou de outra esses livros e artigos escritos levam isso em consideração. O que não significa, necessariamente, que mudar de cidade por impulso não possa acabar sendo positivo.

No entanto, segundo o artigo de Rothman, algumas de nossas escolhas podem estar relacionadas a uma aspiração, ou seja, temos a impressão de que se escolhermos determinado caminho seremos uma pessoa diferente e, mais importante, uma pessoa ou profissional melhor.

Digamos que uma estudante escolhe tomar uma aula eletiva na universidade para aprender sobre música clássica porque acredita que isso a enriquecerá culturalmente. O fato de ter esse objetivo tornará sua experiência mais interessante e pode eventualmente levá-la a seu objetivo. Uma outra estudante que escolheu a aula porque a viu como forma fácil de conseguir uma boa nota pode também alcançar seus objetivos mas, segundo a análise proposta, isso não é aspiração e sim ambição e tira toda a ênfase do processo. Um dos possíveis resumos dessa ópera é que nem sempre uma escolha que te leva a cumprir com seus objetivos é realmente a melhor. E, mais, o julgamento dessas escolhas a posteriori é muito pessoal.

O mesmo artigo pondera que mesmo quando escolhemos algo que não tem muito a ver com nosso ideal de vida: por exemplo, alguém que acha que gente que tem filho pequeno é muito chata, pode vir a ser um pai ou mãe e se tornar exatamente aquilo que criticava, e ainda assim curtir muito tudo isso.

Para concluir, me lembro que eu tinha o costume de perguntar no primeiro dia de aulas a alunos novos no curso de português (em universidades dos Estados Unidos): por que você está aqui? A maioria respondia que já falava espanhol e por isso português lhe parecia o próximo passo; outros tinham interesses específicos, como língua de herança, ou hobbies como a música e a capoeira. Um dia uma moça respondeu, candidamente, que tinha encontrado uma amiga no corredor no primeiro dia de aulas e perguntou para onde ela estava indo: ao ouvir que se dirigia à sua primeira aula de português, a resposta lhe pareceu uma opção curiosa. Elá foi ela acompanhar a amiga, por pura curiosidade.

Naquele momento confesso que fiquei um pouco desapontada e a classe toda achou divertido o inusitado da resposta. Mas para minha surpresa, a amiga que havia se decidido por português de forma convencional ficou só um semestre no curso. A outra ficou por dois semestres e só não ficou mais porque se formava naquele ano. E foi, na verdade, uma ótima aluna!

Desde então, prefiro ter mais cuidado ao julgar e validar escolhas, sejam as minhas ou as de outros.

***

Aqui um pouco do meu percurso antes de escrever este post:

The Art of Decision-Making, Joshua Rothman, The New Yorker.

O papel da ciência na tomada de decisão, Ronald Fisher, Insituto D’ÓR Pesquisa e Ensino (tradutor não creditado).

Vieses cognitivos – Como nosso cérebro é moldado pelas experiências e crenças pessoais?, Eric Rodrigues, Brain Support

Viés cognitivo: entenda os filtros mentais que nos fazem distorcer a realidade. Débora Ely, Gaucha ZH.

Anedota usada aparece em : Winter Journal, Paul Auster, 2012.

Imagem em destaque: Arquivo Pessoal @selmavital 2020

Venha saber mais sobre o novo curso da Claraboia: Descomplicando Machado

contato@claraboiacursos.com

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